Registros de nascimentos, de batismo, de óbitos e até de posse de terras do antigo arraial Santa Luzia, atual Luziânia, revelam que a região onde se ergueu parte do Distrito Federal carrega mais de 300 anos de história. O material se encontra no Arquivo Público da capital
Ao 1º de novembro de 1749, a Igreja ganhou a alma de Anastacia. A filha de Ana, escrava africana da nação Mina, foi batizada na capela de Santa Luzia, recebendo os santos óleos com “licença do Muito Reverendo Doutor Jeronimo Morera de Carvalho”, vigário da freguesia de Meya Ponte. O registro sacramental resistiu ao tempo e, hoje, pode ser consultado no acervo digital do Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF). O então arraial que levava o nome da padroeira é a vizinha Luziânia, que foi, nas palavras de um cronista dos tempos coloniais, o mais extenso da província de Goiás, destacando-se por produzir “panos finos” e exportar doce, café e “tabaco de fumo”.
Na época da construção de Brasília, a cidade goiana cedeu território para a capital futurista sair do traço de Lucio Costa e virar realidade no Planalto Central. A história brasiliense de três séculos ficou escondida, como se por aqui não houvesse nada, além de cerrado, à época da chegada de Juscelino Kubitschek. Essa ideia, porém, é equivocada. Casas, igrejas, fontes e conjuntos comerciais dos séculos 18 e 19 evidenciam o passado pulsante do local onde hoje é o DF, um corredor de gente e de mercadorias na Capitania de Goiás, cortado por dois caminhos que levavam à Estrada Real.
Monumentos, contudo, não são os únicos a contar a história de uma localidade — e, consequentemente, de seu povo. Umas das principais fontes de pesquisa a respeito do período colonial, quando el-rey governava sob as bênçãos da Igreja, são os registros paroquiais. No de Anastacia, por exemplo, poucas linhas bastam para se colher pistas sobre a Luziânia da época. Já que Ana, a mãe da criança, é identificada como sendo da “nação Mina”, sabe-se que, na cidade, havia negros provenientes de uma região da costa africana onde, hoje, fica Benin, Gana e Togo. O documento também revela que Ana é propriedade de outra Anna, “parda forra solteyra”, evidenciando o costume de ex-escravos se tornarem, eles mesmos, senhores, depois de libertos.
Bico de pena
Outra informação subentendida no registro de batismo é a dos deslocamentos geográficos no período colonial. Anna dos Santos, dona de Ana e Anastácia, é de Pernambuco. O padrinho, Manoel, nasceu em Pinto de Lima, arcebispado de Braga, em Portugal. Todos, porém, são “moradores nessa dita arrayal da freguesia de Meya Ponte” (Luziânia, então, estava vinculada à Meia-Ponte, hoje Pirenópolis). “Com os registros de batismo, é possível reconstituir a presença de pessoas na região desde 300 anos atrás”, explica Wilson Vieira Júnior, coordenador do ArPDF. Ele é um dos idealizadores do projeto Documentos Goyaz, que reúne peças históricas dos séculos 18 e 19 referentes a Formosa, Planaltina e Luziânia. As três cidades tiveram áreas desapropriadas para a construção de Brasília, como publicou ontem o Correio com exclusividade.
Hoje, há mais de 100 mil documentos no acervo — a maioria, na versão digital, pois os originais se encontram em outros arquivos, minuciosamente garimpados pelos servidores do ArPDF. Apenas de batismos realizados na capela de Santa Luzia, há cerca de 600. O pequeno oratório não existe mais e foi demolido em 1769 para dar lugar à Igreja Matriz do Rosário, ainda de pé em Luziânia. Os documentos vieram do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC), da PUC-Goiás, um centro de referência da história da região, que conta com milhares de fotografias, mapas e documentos originais desde o século 16 até meados do 19.
Antônio César Caldas Pinheiro, diretor do IPEHBC, explica que, no período colonial, o controle de nascimentos, óbitos e até de posse de terras era responsabilidade da Igreja, a mando da Coroa. “Os padres é que faziam os registros; a Coroa tinha um contrato com o padroado régio. A Igreja era a grande instituição organizada, que estava em todos os arraiás. Nem toda cidade tinha cartório, mas toda tinha uma igrejinha”, explica.
Por isso, nos livros paroquiais, há detalhes não apenas de acontecimentos religiosos. Tudo relativo à movimentação da vida privada ficou nos livros, escritos a bico de pena pelos vigários. “Os registros paroquiais contam a história da população. Através deles, você fica sabendo quanto tempo as pessoas viviam, de que doenças morriam, se nasciam mais homens ou mulheres… Tudo o que tem no Censo cabia à Igreja Católica fazer”, observa a historiadora Cynthia Rocaglio, professora de Arquivologia da Universidade de Brasília (UnB).
De acordo com Wilson Vieira Júnior, apenas com os registros de batismo, famílias que ocupam a região do DF há muitos anos poderão encontrar pistas sobre a sua linhagem. Cruzando os dados com os encontrados em outros tipos de documento, como as certidões de casamento, elas conseguem avançar na pesquisa genealógica. Historiadores também são convidados pelo coordenador a investigarem o material. Apesar da riqueza, a única pessoa que está fazendo uma pesquisa no acervo é o próprio Wilson.
Mais informações
Arquivo Público do Distrito Federal SAP Lote B, Bloco 41 — Novacap Telefones: 3361-1454 e 3361-5916
Transcrição
Os documentos antigos são um mistério para quem não tem o olho treinado. A ciência da paleografia ensina a decifrá-los. O coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF, Wilson Vieira Júnior, transcreveu alguns dos registros de batismo da capela de Santa Luzia. Ele explica que, de acordo com a técnica, não se moderniza nada nem do ponto de vista estilístico nem do gramatical e ortográfico; apenas se torna o documento legível:
“Aos doze de novembro de mil setecentos e quarenta e nove com licença do muito R. Doutor Jeronimo Morera de Carvalho vigario da freguesia da Meya Ponte nesta capella de Santa Luzia batisey e pus os santos oleos a Custodia filha de Lourença parda forra e de idade adulta natural do Rio de Janeiro e solteyra foraõ padrinhos Joaõ Machado da Silva solteyro naturalidade vila de Moigi do Campo e Andresa Morera mulher do Alferes José Viegas de Ataide natural da cidade de Lixboa todos moradores neste freguesia da meya ponte de que fiz este assento em que me asino dia mes era ut supra o capellaõ Francisco Spinula de Ataide”
“Aos seis de dezembro de mil setecentos e quarenta e nove nesta capella de Santa Luzia com liçenca do Muito Reverendo Doutor Jeronimo Morera de Carvalho vigario da freguesia da Meya ponte baptizei e pus os santos oleos a Saturnino filho de Roza solteyra escrava de Manoel de Souza Morera foraõ padrinhos Manoel José Nuves homem branco solteiro natural do Coito de Capareros arcebispado de Braga e Josefa Maria mulher de Manoel Francisco todos mordaores neste dito arrayal de Santa Luzia freguezia
da Meya Ponte dia mes era”
Fonte: Site do Correioweb
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