Testamentos que mudam a história
Para historiadores, textos que definem heranças ou inventários podem ser uma fonte preciosa para a reconstituição da memória de uma cidade
Além da importância para os herdeiros, os testamentos têm um papel social importante para a história do próprio país.
O testamento do aviador Alberto Santos Dumont foi feito em Sorocaba em 7 de setembro de 1931, no 2º Tabelião de Notas. Segundo o tabelião Paulo Roberto Ramos, o aviador era amigo da família Trujillo, e, como provavelmente já estava pensando em se matar, resolveu aproveitar uma visita a Sorocaba para resolver a questão. Como era feriado, o cartório teve de ser aberto especialmente para ele.
Conforme os historiadores, o documento oficial mais antigo de Sorocaba é o testamento de Isabel de Proença, segunda esposa do fundador de Sorocaba, Baltasar Fernandes. “A data de fundação da cidade é de 1654 justamente pela data de registro desse testamento”, explica a diretora dos museus históricos municipais, Sonia Nani Paes. Se o testamento do próprio Baltasar Fernandes fosse encontrado talvez mudasse a história da cidade De acordo com Sônia e com o diretor da Biblioteca Infantil, José Rubens Incao, a análise desses documentos podem identificar o poder aquisitivo das famílias, a história dos prédios que hoje são patrimônios históricos, os costumes de uma época e acompanhar as mudanças de valores.
Em testamentos da época da fundação de Sorocaba, reunidos e publicados em livros pelo Arquivo do Estado de São Paulo, nota-se que as pessoas deixavam bens como colheres, roupas, porcos e plantações. “Pois naquela época até as colheres eram importadas, de prata, por exemplo”, observa Sonia.
No século XVI até por volta do ano de 1900, havia toda uma preparação para a morte e era comum constar nos testamentos, algumas ordens de como gostaria que ocorresse o sepultamento, conforme conta o diretor da Biblioteca Infantil Municipal, José Rubens Incao. “Os bandeirantes que passaram por Sorocaba, por exemplo, deixavam confissões, missas encomendadas, inclusive com detalhes, se queria música no sepultamento e deixava também réis para a Igreja”, destaca.
Fora as questões sociais e econômicas, os testamentos e inventários revelam mudanças fundamentais para a geografia, como a identificação de espaços e divisas antigas.
Propriedades
O testamento/inventário de Isabel de Proença está no livro “História de Sorocaba”, de Aluisio de Almeida. Já o inventário dos bens de Rafael Tobias de Aguiar, foi feita pela Marquesa de Santos, em 1857, um trecho está contido no livro “Rafael Tobias de Aguiar: o Homem, o Político”, de José Aleixo Irmão. O testamento e o inventário do próprio Brigadeiro Tobias estão sendo transcritos por Sõnia Nani Paes, que recebeu o manuscrito digitalizado, enviado por uma pesquisadora do Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico). “Ele fez dois testamentos um em 1842, na época da Revolução Liberal, deixando os bens para a Marquesa de Santos e outro em 1857”, afirma Sônia.
Pertencia ao Brigadeiro Tobias, o prédio atual da Fundec, o bairro que leva o nome do Brigadeiro, o largo do Canhão e parte da atual Vila Hortência. “O Largo do Canhão era chamado de Largo Santa Gertrudes, nome da mãe de Brigadeiro Tobias. A família doou ao município com a condição de que ali nada fosse construído”, destaca.
O documento que funda Sorocaba
Os testamentos antigos não são fáceis de serem encontrados o de Baltasar Fernandes, por exemplo, até hoje, ninguém o localizou. “Já procuramos em São Paulo, em Santana de Paraíba (origem da família do bandeirante), mas não foi encontrado”, avisa a diretora dos museus públicos de Sorocaba, Sonia Nani Paes.
Ela ressalta que se esse documento fosse encontrado poderia mudar a história da cidade. Já que Sorocaba surgiu de uma forma diferente, com um fundador e não como as cidades criadas a partir de uma fazenda de café com a imigração de um povo, ou ainda, a partir de uma ferrovia, por exemplo.
Não se sabe o ano da chegada de Baltasar Fernandes por aqui.
Historiadores trabalham com a hipótese de que ele passava por Sorocaba muito antes de 1654, “mas como a história trabalha com documentos o ano da fundação é esse, por causa do testamento de Isabel de Proença”, explica Sônia.
Costume é mais popular na Europa que no Brasil
O tabelião Paulo Roberto Ramos, do 2º Tabelião de Notas Cartório Renato, afirma que o brasileiro é um povo que não tem o costume de fazer testamento. “Na Europa, não há a lei que obrigue a divisão de bens para os herdeiros, como no Brasil. Lá, fazer testamento é comum. Permite-se deixar os bens a quem quiser” diz.
Diante disso, no Brasil, o testamento só é feito só por quem quer alterar essa ordem, caso contrário, não há necessidade.
“Aqui fazemos cerca de 40 testamentos por ano”, afirma Paulo.
Ele explica que há três formas de fazer esse documento: a) Público, feito no cartório, diante de duas testemunhas e permanecendo disponível para consulta; b) Particular, que deve ser feito de próprio punho pelo testador e levado ao tabelião no cartório. Esse tipo de documento não fica acessível ao público; e o terceiro que é chamado de Cerrado, quando é feito pelo testador e é lacrado pelo tabelião, sem que esse leia o conteúdo. Esse testamento é somenteaberto diante do juiz.
Fonte: Bom dia Sorocaba
Posts relacionados
ARQUIVOS
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- abril 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
- janeiro 2019
- dezembro 2018
- novembro 2018
- outubro 2018
- setembro 2018
- agosto 2018
- julho 2018
- junho 2018
- maio 2018
- abril 2018
- março 2018
- fevereiro 2018
- janeiro 2018
- dezembro 2017
- novembro 2017
- outubro 2017
- setembro 2017
- agosto 2017
- julho 2017
- junho 2017
- maio 2017
- abril 2017
- março 2017
- fevereiro 2017
- janeiro 2017
- dezembro 2016
- novembro 2016
- outubro 2016
- setembro 2016
- agosto 2016
- julho 2016
- junho 2016
- maio 2016
- abril 2016
- março 2016
- fevereiro 2016
- janeiro 2016
- dezembro 2015
- novembro 2015
- outubro 2015
- setembro 2015
- agosto 2015
- julho 2015
- junho 2015
- maio 2015
- abril 2015
- março 2015
- fevereiro 2015
- janeiro 2015
- dezembro 2014
- novembro 2014
- outubro 2014
- setembro 2014
- agosto 2014
- julho 2014
- junho 2014
- maio 2014
- abril 2014
- março 2014
- fevereiro 2014
- janeiro 2014