Rodeada de montanhas, "nascente" do Suaçuí Grande, que ali se forma pela junção de três rios, o Cocais, o Turvo e o Rio Vermelho, na bucólica Paulistas, no Vale do Rio Doce, a 307 quilômetros de Belo Horizonte, nasceu e vive o historiador Raimundo Zeferino de Carvalho, o Tim. Titular do Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Notas da cidade, assumido por ele em 1977, depois de ter estudado em Guanhães (secundário) e Pouso Alegre, num seminário, de 1966 a 1971, e outros tantos trabalhando em Belo Horizonte, onde chegou a ser gerente de uma empresa, Tim é o que se poderia chamar de uma enciclopédia ambulante. Pelo menos no que se refere à história da sua terra e região, o Centro Nordeste Mineiro, dos quais fala com um entusiasmo contagiante.
Em meio à "bagunça" organizada do seu pequeno cartório, que fica na Rua Padre Sampaio, no Centro da cidade, num prédio anexo à casa onde vive com a esposa, a bibliotecária Elizabeth Aparecida Pereira Barbosa, os olhos do escrivão até brilham quando ele diz: "O primeiro diamante do Brasil foi descoberto aqui em Paulistas, no Rio Suaçuí, em 1612, pelo bandeirante paulista Marcos de Azeredo Coutinho". Mata a cobra, mostra o pau e, para provar, apresenta o livro Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, do naturalista francês August De Saint Hilaire, onde há referências à dita pedra preciosa.
Mas não fica só aí, pois o francês, que passou pelo Vale do Rio Doce em 1817, indo em direção ao Jequitinhonha e à Bahia, quando da sua viagem pelo Brasil, menciona ainda, na página 188, a "Ponte dos Paulistas", cruzada por ele, e que teria sido erguida sobre o Rio Vermelho, nas terras da atual Paulistas , pela Bandeira de Fernão Dias Paes Leme nos anos de 1670. Construída com madeiras nobres, então abundantes na região, Saint Hilaire refere-se a ela como a melhor que, desde sua saída de Mariana, tinha visto na Província de Minas Gerais. "Esta ponte serviu à população até o início do século 20, quando foi levada por uma enchente. Anos depois, o que sobrou da madeira foi vendida para um político", conta Tim.
Num outro livro, A história de Peçanha, do historiador Oswaldo Pimenta, de 1995, ele sustenta ainda que, antes das bandeiras de Marcos de Azeredo Coutinho e de Fernão Dias, na sua louca procura pelas esmeraldas, já haviam passado pela Bacia do Suaçuí Grande, em direção ao Jequitinhonha e à Bahia, as bandeiras do espanhol Francisco Bruzza Espinosa, em 1536, que veio da Bahia, com portugueses, mamelucos e índios, e a de Sebastião Fernandes Tourinho, em 1577. "É por isto que eu digo e repito: a história de Minas passa aqui por Paulistas, só que ninguém sabe", garante Tim, recitando um refrão criado por ele desde quando, por conta e risco, começou a estudar história no período em que .cursava o seminário, inspirado em descobrir a origem do nome de sua cidade.
À luz dos papéis, morte e escravidão
Bandeiras à parte, "sobre as quais poderíamos ficar horas conversando", Raimundo Zeferino de Carvalho, de novo com os olhos brilhando, se levanta, vai a uma das prateleiras do cartório, e volta com o O livro de atas do Conselho Distrital, de 1854. Meio empoeirado, mas em bom estado de conservação, "dentro das possibilidades", nele há algumas curiosidades. Entre elas uma monção, do então presidente do Conselho de Paulistas, Bernardino Pereira Afonso, proibindo que os negros dançassem batuque.
Num outro volume, O livro número 2 de notas, de 1877, entre outros documentos, pode-se ver a escritura de venda de uma escrava, pertencente a um fazendeiro local, um certo José Nunes de Resende, a um comprador, também dono de terras, chamado Celestino Monteiro de Carvalho. A "peça", de nome Simplícia, registrada com o número 222, não passava de uma adolescente de 13 anos, que havia sido separada da sua família e trazida por um "mercador de negros" de São José do Calçado, no Espírito Santo.
Em mais um livro, este de 1923, está o atestado de óbito do padre Joaquim Maria Vieira. Este veio a ser um português que, sem conhecer direito as Minas Gerais, nem suas sutilezas, se meteu a fazer política em Paulistas. Além de falar em pleno altar "de algumas coisas que não devia sobre a vida das pessoas". Resultado: após uma das suas missas, num domingo pela manhã, Antônio Batista de Miranda, no caso um dos "ofendidos" pelo sacerdote, o esperou com uma carabina e o matou. "Por estas e por outras, até hoje, nossa cidade ainda tem o apelido de "a terra do mata padre", brinca o historiador.
Caminhando para os 60 anos, que serão comemorados ano que vem, Raimundo Zeferino de Carvalho, nos últimos tempos, tem se preocupado com duas coisas. A primeira é com o volume das águas do Rio Suaçuí Grande, "que caiu pela metade, devido aos desmatamentos". E a outra é porque a sua cidade, cujo nome foi dado em homenagem aos bandeirantes paulistas que a fundaram -enquanto procuravam por ouro e diamantes – , ainda não foi inserida, "injustamente", no Roteiro da Estrada Real, ao contrário das vizinhas Sabinópolis e Guanhães. "Pode uma coisa destas, com tanta história que temos?", questiona.
De novo Tim se levanta, seus olhos voltam a brilhar, e quando ia começar a contar outra história, chega Elizabeth, sua mulher, e diz que o lanche está na mesa. Em Paulistas, é bom que se diga, se produz um dos melhores queijos do tipo minas. (CH)
Fonte: Portal UAI
Posts relacionados
ARQUIVOS
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- abril 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
- janeiro 2019
- dezembro 2018
- novembro 2018
- outubro 2018
- setembro 2018
- agosto 2018
- julho 2018
- junho 2018
- maio 2018
- abril 2018
- março 2018
- fevereiro 2018
- janeiro 2018
- dezembro 2017
- novembro 2017
- outubro 2017
- setembro 2017
- agosto 2017
- julho 2017
- junho 2017
- maio 2017
- abril 2017
- março 2017
- fevereiro 2017
- janeiro 2017
- dezembro 2016
- novembro 2016
- outubro 2016
- setembro 2016
- agosto 2016
- julho 2016
- junho 2016
- maio 2016
- abril 2016
- março 2016
- fevereiro 2016
- janeiro 2016
- dezembro 2015
- novembro 2015
- outubro 2015
- setembro 2015
- agosto 2015
- julho 2015
- junho 2015
- maio 2015
- abril 2015
- março 2015
- fevereiro 2015
- janeiro 2015
- dezembro 2014
- novembro 2014
- outubro 2014
- setembro 2014
- agosto 2014
- julho 2014
- junho 2014
- maio 2014
- abril 2014
- março 2014
- fevereiro 2014
- janeiro 2014