Recivil
Blog

Justiça permite transexual mudar nome

Amanda Marangão Galdino de Carvalho constará no seu registro de nascimento e no documento de identidade

Marília – Em decisão inédita na região, a Justiça de Marília (100 quilômetros de Bauru) concedeu à transexual Amanda Marangão Galdino de Carvalho, 19 anos, moradora da cidade, o direito de utilizar o nome e o sexo que escolheu desde a infância em seu registro de nascimento e documento de identidade. Agora, a jovem, que já passou por diversas cirurgias que lhe transformaram fisicamente em uma mulher, poderá ser legalmente reconhecida como tal.

O advogado de Amanda, Cristiano de Souza Mazeto, considera a decisão da juíza Paula Jacqueline Bredariol de Oliveira uma vitória.  A grande chamada dessa decisão é que, além de modificação do nome, houve também a modificação de gênero. Para todos os efeitos, a Amanda é mulher em todos os aspectos , ressalta.

Segundo Mazeto, outro fato que chama a atenção é a rapidez com que a ação, protocolada no final de novembro junto à 1ª Vara Cível de Marília, foi julgada.  Na verdade, o que mais demorou foi toda a preparação. Nós tivemos que elaborar peças, buscar documentação, fora a preparação psicológica e médica dela , conta, processo que teria durado dois anos.

Para embasar a ação, o advogado destacou que, desde a infância, Amanda, que nasceu com o nome de Felipe Marangão Galdino de Carvalho, assumiu conduta tipicamente feminina. Ao completar 18 anos, a jovem procurou auxílio de médicos especialistas e se submeteu a cirurgias para implantar próteses nos seios, moldar seu rosto e mudar de sexo.

Diante da nova realidade física, psíquica e social de Amanda, impõe-se a necessidade de alterar seus registros públicos civis para o nome que escolheu, bem assim a modificação do gênero , argumentou. Segundo ele, o embaraço gerado pelas características femininas de sua cliente, associadas ao nome masculino, a levaram a trancar matrícula em curso superior.

Na ação, Mazeto citou ainda decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em relação ao pedido de alteração de nome e gênero. Na decisão, o órgão defende que  assegurar ao transexual o exercício pleno de sua verdadeira identidade sexual consolida, sobretudo, o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.

Outro argumento que, na opinião do advogado, sustenta a legalidade da medida em favor de Amanda é o fato do Conselho Federal de Medicina ter regulamentado a cirurgia de redesignação (mudança) de sexo, que já é custeada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).  Se o próprio Estado já permite e autoriza a dita cirurgia, também deve facilitar o convívio social através da necessária modificação dos documentos , afirma.

Na decisão, a juíza alega que  insistir em manter, em seu assento de nascimento (e consequentemente em seus documentos pessoais), a indicação de prenome e estado sexual que não correspondem, em absoluto, à maneira como aparece em suas relações com o mundo exterior, significa condená-lo a uma situação de incerteza, angústias e conflitos, impedindo-o, ou ao menos dificultando-lhe o exercício das atividades de seres humanos, negando-lhe o direito da cidadania .
 Apesar de ainda não haver legislação específica sobre o assunto, tramita no Congresso Nacional o projeto de lei 72/2007 que dispõe sobre registros públicos e possibilita a substituição do prenome de pessoas transexuais. A proposta está sendo analisada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa.
 Processo difícil
 Amanda Marangão Galdino de Carvalho considera a decisão judicial o  ponto final de uma luta  de cerca de dois anos. De acordo com a jovem, foi necessário um ano nos Estados Unidos para que a ideia de que estivesse causando algum tipo de constrangimento à sua família fosse superada.

No retorno, ela decidiu que faria as cirurgias necessárias para se transformar em mulher. Além de intervenção cirúrgica no rosto, foi submetida a implante de prótese de silicone nos seios e cirurgia para mudança de sexo. Contudo, Amanda revela que ainda faltava alguma coisa.

Eram problemas na faculdade porque na lista de chamada sai o nome masculino, com namorado, conta.  Para mim era muito difícil. Com a decisão, ela espera não enfrentar mais dificuldades para arrumar emprego, usar o banheiro feminino, cursar uma faculdade, entre outras coisas que, para muitas pessoas, podem ser consideradas corriqueiras.

Segundo ela, uma de suas angústias referia-se ao fato de só enxergar a possibilidade de seguir uma profissão relacionada ao meio homossexual.  Eu quero muito fazer algo que ajude as pessoas e que possa dar orgulho à minha família, que é o mais importante de tudo. Sem eles, eu não teria conseguido nada do que eu sou hoje , declara.
 

Fonte: Jornal da Cidade – Bauru/SP

 

Posts relacionados

Artigo – Falha do Estado faz mãe procurar parto anônimo – Por Sylvia Maria Mendonça do Amaral

Giovanna
13 anos ago

Falta de regulamentação adequada dificulta que casais homoafetivos registrem filhos, afirma especialista em biodireito

Giovanna
10 anos ago

Agenda do Presidente – 18 a 22 de fevereiro

Giovanna
13 anos ago
Sair da versão mobile