SÃO PAULO – Maria Teresa tem 55 anos e dois nomes, duas certidões de nascimento. Não nasceu Maria Teresa. Nasceu Maura Regina Luchetti, no Hospital Santo Angelo, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, um dos 33 hospitais de isolamento para portadores de hanseníase que funcionaram no Brasil até 1986. Era 12 de maio de 1956. Maria Teresa foi registrada um dia depois, 13 de maio, com o sobrenome Silva Santos Oliveira, pela família que a adotou e criou.
Os pais adotivos morreram no início da década de 90 e apenas em 2001 ela conseguiu que o irmão adotivo, um médico 17 anos mais velho, lhe revelasse o segredo. Maria Teresa é uma das cerca de 40 mil crianças que foram retiradas de pais portadores de hanseníase e encaminhadas à adoção. Hoje adultos, pelo menos 6 mil deles tentam resgatar suas histórias e suas origens. Nesta quarta-feira, em São Paulo, são esperados pelo menos 500 deles num abraço à Associação Santa Terezinha, um orfanato de Carapicuíba para onde eram levadas as crianças destinadas à adoção. Durante o evento, uma unidade móvel para o diagnóstico da hanseníase, conscientizará sobre a doença e coletará material genético para o Programa Reencontros, que usa os testes do DNA para confirmar parentescos.
Inspirados nas mães argentinas da Plaza de Mayo, que tiveram filhos desaparecidos durante a ditadura, eles começam a colher saliva para identificação genética de possíveis parentes, por meio de exame de DNA, uma parceria do Movimento pela Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), do Instituto Nacional de Genética Médica Populacional (Inagemp) e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, que ajudará a confirmar laços de parentesco apontados por uma investigação prévia, realizada pela análise de documentos e de histórico familiar. Será o primeiro banco genético deste tipo no país.
O Brasil foi o segundo país do mundo a reconhecer os danos causados aos portadores de hanseníase, em 2007, e a determinar indenização por meio de pensão vitalícia de dois salários mínimos mensais. Cerca de 8 mil pessoas já recebem o benefício. Agora, pleiteia-se indenização também para os filhos, que foram separados dos pais e, ainda hoje, enfrentam problemas. Antes do Brasil, apenas o Japão indenizou suas vítimas. Lá, porém, não há filhos a serem indenizados, pois as mulheres portadoras de hanseníase eram submetidas a aborto.
Maria Teresa descobriu que o pai se matou no hospital no mesmo ano em que ela nasceu, um ato de desespero comum às vítimas da doença. Da mãe, até hoje não tem notícia. Graças à procura por parentes, encontrou suas duas irmãs. Nenhuma delas teve a mesma sorte. Elza, 57 anos, foi adotada por uma família rica aos 9 anos de idade, mas sempre foi usada como empregada doméstica. Nunca estudou, é diabética e hoje mora sozinha. Marisa, 54 anos, viveu num orfanato até 18 anos, de onde saiu e conseguiu emprego como funcionária pública. Tem cinco filhos e luta para conseguir educá-los.
– Ela foi para uma família rica que a pegou para ser empregada, eu fui para ser filha – diz Maria Teresa, referindo-se à irmã mais velha.
Uma das líderes do movimento das famílias separadas pela hanseníase, Maria Teresa diz que arrumou emprego para Elza, mas que a irmã não tem estrutura emocional e não consegue permanecer.
– Temos vínculo biológico, mas não temos vínculo afetivo. Não é a minha família. Tiraram isso de mim – diz Maria Teresa, que continua a se sentir muito mais Silva Santos Oliveira do que Luchetti.
Assistente social, Maria Teresa luta, agora, para que os filhos que sofreram com a perda de suas famílias sejam também indenizados pelo Estado.
– A separação do passado hoje nos une para reivindicar os nossos direitos junto ao Governo Federal – diz Maria Teresa.
Maria Teresa conta que, quando viu a certidão de nascimento verdadeira e a foto da mãe, não teve dúvidas. As duas, assegura, eram tão parecidas que sequer precisaria de exame de DNA para confirmar o parentesco. Moradora de Barueri, na Grande São Paulo, ela busca reunir pessoas com a mesma história pelo blog filhosseparadosmohan.blogsbot.com e pelo Facebook, onde se identifica como Teresa Oliveira. No blog, já contabiliza cerca de 30 mil acessos.
– Desde que conheci minha origem, tudo o que faço tem sentido e vai para frente – afirma.
A hanseníase é uma doença que hoje tem cura e tratamento pelo Sistema Único de Saúde, mas continua a ser um grave problema de saúde pública. O Brasil ocupa a primeira posição no ranking mundial de prevalência da doença. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 34.800 mil novos casos foram detectados no país em 2010 – 7% em menores de 15 anos. A situação é mais grave nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, que concentram 53,5% dos casos.
Fonte: Jornal O Globo
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Filhos separados pela hanseníase reivindicam indenização
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