Ativos e com boa saúde, os sessentões brasileiros não desistem mais da vida amorosa e, com toda a pompa, não têm medo de subir ao altar outra vez. Longe dos bailes voltados para a terceira idade e com múltiplas ocupações, além da de se dedicarem aos netos, os brasileiros que cruzam a fronteira dos 60 anos têm chamado a atenção dos demógrafos por uma razão inesperada: nessa faixa etária, o número de casamentos sobe em ritmo recorde. Tais uniões, formalizadas em cartório e até celebradas com toda a pompa que pode envolver a ocasião, aparecem, em destaque, num novo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele revela que o aumento do número de matrimônios em que pelo menos um dos cônjuges passou dos 60 foi de 44% desde 2003 um ritmo que salta aos olhos por ser 60% maior que o registrado na população brasileira como um todo nesse exato período (veja o quadro abaixo). Representantes típicos do grupo, a decoradora Moema Leão, 64 anos, e o empresário Celso Martins, 67, selaram o enlace em 2007, mesmo que, inicialmente, sob certa desconfiança dos familiares.
"Tinham medo de que eu sofresse uma decepção a esta altura da vida, mas o fato é que me sentia pronta para recomeçar", resume Moema, que tem quatro filhos, seis netos e um histórico de três outras uniões. A tendência é que, como ela, mais gente no Brasil se case depois dos 60. Explica o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do IBGE: "É uma consequência direta do fato de os brasileiros não só estarem vivendo mais, como também envelhecendo melhor sob vários aspectos, a exemplo do que já se vê em outros países".
Pouco alardeado, um dos fatores decisivos para o flagrante aumento dos casamentos numa faixa etária mais avançada tem sido a manutenção da renda por parte dos que já chegaram aos 60. Mais independentes financeiramente, eles se sentem também mais livres para seguir rumo ao altar. Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta para um crescente número de sexagenários que contam com uma renda fixa proveniente do trabalho no Brasil.
Hoje, 38% deles estão no mercado, contra os 31% de apenas cinco anos atrás. "Ativas intelectualmente, essas pessoas simplesmente postergam a aposentadoria", diz o economista Lauro Ramos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Registros de duas das maiores empresas de previdência privada do país ajudam a reforçar a ideia de que os sessentões estão mais cautelosos quanto a dinheiro: em cinco anos, dobrou o grupo dos que contavam com um plano. Dono de um consultório odontológico em São Paulo, Benedito Bassit, 73 anos e "muito bem casado" há três, traduz um pensamento já comum à gente de sua faixa etária: "Venho me preparando há tempos para aproveitar plenamente essa fase da vida, em que ainda me sinto jovem".
O avanço dos casamentos após os 60 tem ainda relação direta com o salto na expectativa de vida no Brasil atualmente de 70 anos para os homens e de 77 para as mulheres. Para se ter uma ideia, um brasileiro tem hoje o triplo de chance de ultrapassar os 60 anos do que tinha em 1920.
Não só se vive mais, mas também bem melhor. Quem chega aos 60 sem uma doença grave e segue um estilo de vida regrado, com exercícios físicos e boa alimentação, conta, em média, com mais quinze anos de vida perfeitamente saudável. "Nessa faixa etária, as pessoas passaram a expressar mais satisfação com o próprio corpo e se revelam abertas a novas experiências amorosas", afirma a psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas de São Paulo, à frente de um dos grandes estudos já feitos sobre a sexualidade dos brasileiros. Ele mostra que mais da metade dos que já chegaram aos 60 se declaram sexualmente ativos e satisfeitos nesse campo. "Minha vida sexual é muito melhor hoje do que há vinte anos", reconhece a artista plástica Beatriz Cabrini, 60 anos e recém-casada pela segunda vez.
Os especialistas concordam que uniões como a dela combinam duas características que fazem aumentar as chances de que sejam mais duradouras.
"A essa altura da vida, além de terem uma maior maturidade para lidar com as dificuldades do casamento, as pessoas se tornam mais seletivas ao escolher seu par, o que reduz o risco de erro", afirma a psicóloga Ceres Araujo. Décadas atrás, a expectativa que havia sobre uma mulher brasileira depois dos 60 era que ela se mantivesse casada com o primeiro marido ou, em caso de viuvez, abdicasse da vida amorosa. Aos poucos, essa visão conservadora foi se tornando menos rígida, à medida que as próprias famílias ficaram mais heterogêneas. Foi um estímulo a mais para os casamentos dessa nova e ativa geração de sexagenários que está mudando o velho conceito de terceira idade.
Fonte: Revista Veja
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