“Se foi um político de tantas realizações, pois fez muito mais coisas, provavelmente ficará na história como `o homem do divórcio`”
Se hoje o divórcio é uma coisa comum, que faz parte da vida dos casais quando não dá mais para continuar o relacionamento, nem sempre aconteceu assim. Já foi um tema que, aqui no Brasil, gerou infinitas discussões em todas as camadas da sociedade, sobre a sua implantação ou não. Toda essa querela, que culminaria com a sua aprovação em junho de 1977, começou quando Nelson Carneiro, um baiano eleito senador pelo Rio, lançou a idéia. Foi o suficiente para, durante um bom tempo, não se falar em outra coisa dentro das casas, nos bares, nas igrejas, ao se encontrar com um amigo na rua ou nos locais de trabalho. Prós e contras era o que não faltava. Para uns, Nelson Carneiro era um homem moderno, à frente do seu tempo. Para outros, no entanto, não passava da própria encarnação do demônio com esse tipo de proposta que, em última análise, “queria mesmo era destruir a família, acabar com os bons costumes”.
Parlamentar respeitado, homem de conversa fácil, como bem me lembro, lendo um pouco sobre sua vida fiquei sabendo que ele formou-se em direito em 1932, pela Faculdade da Bahia, e nesse mesmo ano, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, esteve preso. Com a redemocratização do país, em 1945, filiou-se à UDN, tendo sido eleito deputado federal em 1947, reelegendo- depois. Sua luta pela implantação do divórcio vinha de longe, desde 1951, quando apresentou um projeto na Câmara dos Deputados. Duramente combatido pelos políticos conservadores, que eram a maioria, e também pelas igrejas, esse foi direto para a gaveta, onde ficou dormindo durante longos 26 anos, para finalmente ser aprovado. Em 1989, já bem idoso, Nelson Carneiro presidiu o Senado. No ano seguinte, pelo PMDB, foi candidato ao governo do Rio, sendo derrotado por Leonel Brizola. Morreu em 1994.
Se foi um político de tantas realizações, pois fez muito mais coisas, provavelmente ficará na história como “o homem do divórcio”. Naqueles idos de 1977, por todos os cantos do país, inclusive na minha pequena Coluna, seu nome e a sua proposta estavam na boca de todos. No bar do seu Chico, onde uma turma de amigos tomava cerveja, não se falava em outra coisa: “O divórcio vem aí, compadre, o senhor ficou sabendo?”. ” Ouvi dizer, onde já se viu um trem desses, o divórcio.”, respondeu o outro. “Pois é”, interferiu um terceiro: “Dizem que, aqui na região, se ele vier mesmo, chega primeiro em Guanhães.”.
Seu Chico, do lado de dentro do balcão, prestava atenção na conversa. Homem simples, de princípios arraigados, parecia não estar gostando nada do que escutava: “Se ele vier, compadre, como está parecendo, aposto que vai acabar com a família, com o casamento, com a religião”. ” Vai deveras. Também estou muito preocupado, com medo, até já falei com a minha mulher. Isso só pode ser comunismo.” , respondeu o interlocutor, enquanto pedia ao dono do bar, que era todo ouvidos, outra cerveja bem gelada. Essa veio acompanhada por um delicioso tira-gosto, feito pela própria esposa do seu Chico.
E a conversa foi indo. O divórcio vem ou não vem? “E se ele vier mesmo, será que vai chegar aqui na nossa Coluna?”, perguntou o compadre. “Não, não é possível uma coisa dessas, Deus nos livre.”, disse o outro, que vendo o interesse do vendeiro pelo assunto, virou-se para ele e perguntou: “E o senhor, seu Chico, o que acha do divórcio, ele chega ou não chega?”. Então esse levou as mãos à cabeça, cuspiu no chão, passou o pé por cima e respondeu sem pestanejar. “Se vem ou não, isso eu não posso saber. Mas uma coisa eu agaranto a vocês. Se ele chegar aqui na Coluna, e entrar no meu bar, eu corto ele na faca”.
P.S.: Esta crônica é para o meu leitor Thomaz Rodrigues, em Conselheiro Lafaiete.
Fonte: Jornal Estado de Minas
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